sábado, 18 de agosto de 2012

indigesto

Tenho dificuldade em aceitar muitas coisas, acho que todos nós nos inquietamos com o que nos parece torto.
Mas muita coisa anda parecendo torta aqui nesse bananal. E logo, eu ando tendo muita dificuldade por aqui. (Bananal é a designação pra terra brasilis, de acordo com uma prima que há mais de vinte anos vive, feliz, no exterior).
O bananal tá difícil, muito difícil.
Difícil de aceitar, difícil de operar. 
Ontem tive ganas de não me meter a besta mais, e deixar de lado essa bobagem de assistir ao noticiário e consultar jornais várias vezes ao dia. Refleti e ainda estou refletindo sobre ônus e bônus de me manter informada / alienada. Só cheguei à conclusão de que ando sim, me mantendo bem chateada. 
Doses diárias de chateação? Aperte o botão.Tem pra todos os paladares, com ampla gama de amargos, passados, mofados e azedos. Difícil de engolir. Azias? Na certa.
Tudo errado, regado ao molho da infeliz normalidade. 

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

"Todo roubo e toda a indiferença"

Semana passada foi-se embora um cordão de ouro com um coração que ganhei de paps quando fiz quize anos.
Coisa que eu gosto (ou gostava, ainda não sei) é andar na rua.
Sentir o vento, ver as pessoas, as árvores, os passarinhos, ver a vida acontecer. Na rua a gente sente a vibe do mundo, qualquer que seja ele. A gente é livre quando caminha. Imprime ao caminho nosso ritmo, vê com os olhos que te habitam naquela hora, escuta os ruídos, as gentes, presencia os movimentos à nossa maneira. Quando caminhamos pela rua estamos no mundo, não no nosso, mas no mundo que está aí pra nós, com suas mudanças ou suas permanências. Enfim, adoro caminhar. É o momento em que mais reflito sobre o que for que estiver me apoquentando, e, consequentemente, também elaboro perguntas e respostas.
Lindo, até então.
Nunca tinha sido roubada. Uma vez tive a mochila da Company roubada, por tê-la deixado no chão do Fiat 147 que mamãe tinha. Fiquei muito triste, mas não vi a cara do ladrão, tive essa sorte.
Mas dessa vez, o roubo foi cara a cara.
Uma voz na minha cabeça me disse (mesmo) que eu estava distraída. O vai e vem da região hospitalar me absorveu muito e também o sujeito estranho que estava à minha frente, com uma tornozeleira de presidiário (nunca tinha visto uma). As pessoas se desviavam dele, que andava a esmo, aparentemente se divertindo com as reações dos transeuntes a sua estranheza. Ele ficou prá trás, tomei o cuidado de apertar as passadas. Senti então uma mão no meu ombro. Esquisito. Não parecia ser alguém conhecido, pois era um jeito estranho de tocar no ombro. Quando me virei, vi um rosto masculino bem perto e senti seu dedo indicador na lateral do meu pescoço. Deslizou até encontrar a correntinha, que arrebentou facilmente. Com a outra mão, a aparou e colocou rapídamente no bolso da calça, se esqueirou entre mim e a banca de jornais, atravessou a rua como uma enguia por entre os carros e subiu correndo a avenida transversal, olhando pra trás.
Ele ouviu o "filhodaputa" que soltei, quando senti que aquele presente, caríssimo pra mim, se desprendeu irremediavelmente para sempre de meu pescoço. Não era o rapaz da tornozeleira. Era um rapaz comum, vestido como um jovem qualquer.
Chamei a polícia, que me atendeu no que pôde, mas que infelizmente não será capaz de reaver meu presente, quiçá meu gosto por caminhar pela rua.
No boletim de ocorrência o campo "motivação do delito" foi preenchido com a vaga explicação: "dificuldade financeira/ cobiça".
Olha, seu moço, é muito mais. Se tivéssemos um campo desse pra preenchermos com  as motivações para todos os delitos dos quais o infeliz cidadão brasileiro é vítima toda hora, todo dia, teríamos longos textos anexos.
Ao final destes, precisaríamos sempre citar o absurdo da lógica perversa de que "temos que nos adaptar e nos acostumar", porque ser desrespeitado é regra, não exceção.
Então dá licença, tô me retirando, embora o "retirar" se dê em parte apenas, pois não consigo me excluir totalmente dessa enganação injusta que é o Brasil. Se eu pudesse me retirar pra outra parte do mundo, como outrora fiz, picava a mula loguinho, pra não voltar nunca mais.
Tal qual Carlota Joaquina, batia os sapatos e não levava nem um pozinho desse solo amargo.

Título retirado da canção "Perfeição" - Legião Urbana, vale lemrar.

domingo, 12 de agosto de 2012

como aconselhar a um amigo

Ando bem requisitada nessa área.
De desilusões, passando por recomeços, a términos e engodos afins. Tenho discursado a respeito de tanta coisa em ouvidos atentos e ansiosos por respostas.
Meus caríssimos, atualmente, preenchem um amplo e variado espectro no que toca às querelas do romance, da aventura, das burrices, dos altos investimentos, dos comodismos, das construções e desconstruções, questionamentos então nem se fala!... Ufa.
Mas sempre me pergunto se não estaria, eu mesma, borrachando, sabe?
Porque conselheiros não ganham ISO9000 e nem são site de compras, em que os clientes satisfeitos vão lá e te dão estrelinhas, com um feedback para os próximos que vierem.
Então? Como garantir a seus amigos o melhor dos conselhos? Isso sem precisar que assinem um termo que te libere de ser reponsabilizado por eventuais fracassos?
Fato é que só aconselho se for solicitada (já falei aqui e repito: conselho que não é solicitado é intromissão!). E ponto.
Meu estilo de consultoria emocional é, de fato, diferente. Não me atrevo a lançar um: "Eu se fosse você faria xyz...". Ja-mais. A não ser, claro, se confrontada com a pergunta direta: "O que você faria no meu lugar?"
Gosto de ouvir, costumo falar pouco, e assim sendo, entendo o pedido pelo aconselhamento como uma chance de desabafo mesmo. E quantas vezes o desabafo, por si só, faz maravilhas? É interessante notar, quando a pessoa, ao verbalizar a querela acaba atentando para outros aspectos até então obscuros? Elas ouvindo a si mesmas se confrontam melhor com a coisa em questão.
E é magnífica a oportunidade de ouvir, o que quer que seja. Reconheço com grande carinho os momentos em que eles pedem emprestados minha escuta e minha atenção.
Então talvez eu até me saia bem nas aconselhanças. Me ocorreu agora que minha mãe conta que o vô Juquinha dizia que "Deus te deu dois ouvidos e uma boca pra escutar mais do que falar."
Faz sentido.
Mas coma verduras, sempre.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

antes disso...

Que preguiça o tal de Facebook...
Que preguiça da "vida" virtual.
É tudo tão vazio... a tela cheia de imagens, imagens, imagens... E só.
Sou chata mesmo. Nada melhor que a vida lá fora.
E tenho dito.
Ô se tenho.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

por causa da mulher

Peguei as propostas de redação da semana pra fazer em casa. A-do-rei quando vi que uma delas tinha um tema que já estava preparadinho pra virar post aqui: O papel da mulher no mundo contemporâneo.
Difícil é passar na peneira uma farinha tão fina. E fazer virar vinte e poucas linhas manuscritas.
E pena não poder escancarar a opinião, coisa cabível aqui, apenas (sera?).
Voltarei em breve, dizendo que... elas também são machistas.
Esse pano ainda vai dar manga.
Inté.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

o apito

Passados os dias que amanheceram e eu nao (hoje foi o teclado quem nao amanheceu, sorry...).
Enfim, findados os dias do incomodo. Nada resolvido, mas ainda assim, algo se resolveu. E miraculosamente sem terapia, agendada pra amanha, pois nao consegui matar as aulas de segunda pra chegar la.
Sei nao. Mas tem um aprendizado.
Escrevi no caderninho, segunda a noite, que parecia que tinha um apito de locomotiva na minha cabeca. Ja tnha ouvido aquele apito antes. A epopeia abaixo explicaria a imagem mental que fiz do aprendizado, e registrei assim (dois pontos)

Ela estava de pe na estacao de trem e ouviu o apito soar estridentemente. Fez que ia sair correndo com a mala na mao, sobressaltada, quando um senhor, conhecido, mas nao sabia de onde, se levantou de um banco banco e se colocou a sua frente (dois pontos)
- Minha filha, nao corra, tenha calma.
- Mas o apito... o trem... a viagem... o tempo!
(A ansia!)
- Voce diz que ouve este apito, e talvez ouca mesmo, repetitivo, nitido, alto, incomodo.
- Sim, eu ouco! Poisintao!
- Lembre-se de quantas vezes, ao menor ruido desse apito voce saiu desesperada pra pular no vagao. E o vagao nem era o seu! Outras em que voce nao terminou de arrumar as malas mas assim mesmo foi, amargando a falta de coisas que largou pra tras. Em outras, caiu, machucou, sua mala abriu e voce ficou ali, esparramada no chao da estacao enquanto o trem partia! Certa feita, era o apito do trem errado, antes do seu, mas, temendo ficar por aqui, temendo o que ia lhe acontecer, temendo a espera, voce foi. E chegou em outro destino. E assim tem sido!
(Os erros!)
- Mas, o tempo! O apito!
- Minha filha, quando e que voce vai aprender...
- Agora seria bom... estou cansada disso! Veja os meus joelhos ralados! Veja os meus farrapos, minha mala por demais pesada! Quantos bilhetes ja comprei sem que tivesse chegado ao meu destino!
(Mas, e o apito!)
- Sente-se aqui, se recomponha. Ouca atentamente que nao ha apito. Apenas o som das pessoas subindo e descendo dos vagoes, da estacao, o barulho das locomotivas que chegam e saem. Nao ha apito.
- Sim, nao ha.
- Quando o apito do seu trem soar, ai sim, voce ira ouvi-lo. Entao pare e ouca, atentamente. Voce nao ira perder o trem por esperar, mas ira perde-lo se se precipitar novamente.

E assim foi. E assim fui.
O tempo e precioso pra gente ficar sempre repetindo as mesmas bobagens. Mas parece que e preciso reconhecer nossa infinita capacidade de repeti-las e se dar conta disso. E algo dificil e desconfortavel de realizar.
Vou ali correr, depois almocar, depois aula. Ate o dia em que o pito soar.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

a descontinuação

Poisintão.
O segundo semestre começou, mas eu não.
O dia amanheceu e eu ainda não.
Tipo, o barco partiu comigo dentro, mas ainda não calcei os sapatos, quiçá fiz as malas.
Precisa de mais exemplos?

Sei  não, mas tô indo.

Ainda bem que a terapeuta me aceitou hoje e não vou precisar esperar até quarta.

Que manhã comprida, meu deus!

terça-feira, 24 de julho de 2012

pra não ficar que nem ocê

Me abana, porque foi essa resposta que dei a uma pessoa que veio me dizer, num humor sarcástico-venenoso: "Mas cê tá estudando demais, devia estudar menos, pra quê estudar desse tanto?"
ESTUDAR MENOS!!!!! Veja bem... Pense bem nisso...
Como se você estivesse pelejando pra emagrecer, por exemplo, e eu mandasse: "quê isso, dá uma folga, não faz mal um brigadeirozinho..." Cara, isso é veneno puro, ainda que acompanhado da vil desculpa de que "estou pensando no seu bem, pois gosto muito de você". 
Me convenço cada vez mais que amar é pretexto pra cada coisa...
Nessa minha empreitada, já ouvi de tudo, e por isso ando me blindando. As piores, ou mais cruéis observações, claro, foram disparadas por aqueles que mais me são caros.
"Você podia aproveitar que está fazendo estudando e fazer um concurso"
"Por que você não tenta outra coisa?"
"Não se esqueça, se não der certo, estou aqui, pro que você precisar"
"Por que você não faz uns bicos?"
E, claro, não dá (ou, leia-se que eu sou uma plasta mesmo) pra responder a essas marmotas: "Por que vocês não ficam calados? Ajudariam mais assim."
Mas essa daí, do título, saiu espontaneamente. Não me orgulho dessas reações não, até porque, conhecendo meu gado, antevi e se confirmaram as repercussões. Fui ridicularizada assim que virei as costas. Normal. 
Mas ó, que se dane. A gente não mexe com quem está quieto. E conselho, se não for solicitado, é intromissão. 
Sou do tipo diplomático, que pensa muito antes de falar, não gosto de polemizar e evito conflitos a todo custo. Mas ao que me parece, a vibe do saco cheio se instalou. Foi enchendo, desde criancinha. 
O que senti, depois que disparei isso, foi como se tivesse vomitado. As palavras pularam da minha boca, tão logo meus ouvidos detectaram a baboseira. E... "paf!" acertaram em cheio no feridão. Deve ter doído.
Ô se deve.

Poisintão. Deixo aqui algumas palavras de Contardo Calligaris, à Folha do dia 12/07("Os outros que ajudam (ou não)"), que refletem bem essa pendenga:

"(...) Por que os próximos da gente, na hora em que um reforço positivo seria bem-vindo, preferem nos encorajar a trair nossas próprias intenções?
Há duas hipóteses. Uma é que eles tenham (ou tenham tido) propósitos parecidos com os nossos, mas fracassados; produzindo nosso malogro, eles encontrariam uma reconfortante explicação pelo seu.
Outra, aparentemente mais nobre, diz que é porque eles nos amam e, portanto, querem ser nossa exceção, ou seja, querem ser aqueles que nós amamos mais do que nossa própria decisão de mudar. Como disse Voltaire, "Que Deus me proteja dos meus amigos. Dos inimigos, cuido eu"."

quinta-feira, 12 de julho de 2012

"(...) a gente cai sempre (...)"

Férias.
Estava assistindo agora há pouco o Saia Justa, cuja pauta era... piriguetes.
Tentavam desvendar, analisar, entender os porquês do "movimento". Achei interessante, porque pareceu uma análise de uma nova descoberta, mas daquelas que trazem mais questionamentos que respostas.
Concordo com Xico Sá, que disse que elas sempre existiram.  
Lembrei de um artigo de Mona Chollet, na Le Monde do mês passado: "As mães e as putas estão de volta". Ela falava que na impossibilidade, ou na dificuldade de vencerem na vida por meio da batalha diária que mistura intelecto e brigas de foice no mercado de trabalho, muitas mulheres recorrem às mais primitivas ocupações: simplesmente como mães ou como prostitutas. Ela fala da sedução e da maternidade enquanto dons inatos da natureza feminina, apresentando-se em muitos redutos como alternativas que tragam realização pessoal. (Qualquer semelhança com Bruna Surfistinha e a alta natalidade em favelas não é mera coincidência então).
Mas peraí, sem julgamentos de propósitos, não vim aqui pra isso, ok? Cada um (ou uma) é feliz do jeito que quiser e pronto. Não tenho nada com isso, nem você.
É nessa lógica que queria também discutir piriguetismo... Enquanto ferramenta feminina.
Fato é que mulher consegue o que quer. Não restam dúvidas.
Outro fato, muito confirmado, é que "homem tá difícil" (mas não quero entrar na discussão deste tópico específico). Porque, peraí, não dá pra discutir piriguetes sem discutir relacionamentos. Ou você acha que o aumento da piriguetagem varia proporcionalmente ao quadrado do desmatamento e inversamente propocional à crise das bolsas européias? Que nada.
O que vejo, na verdade, é mais uma das macaquices femininas pra... adivinhem? Conseguirem o que querem! Atire o primeiro sutiã quem discordar de que mulheres são exímias nas artes do disfarce, da dissimulação, do bote, da camuflagem, das teias, emboscadas, etc etc etc. Mulheres são autoras das mais engenhosas farsas, sejam visuais (aquela bunda é obra da calça) ou sejam comportamentais (Maria Madalena ou Lilith?). Tudo isso pra chegar onde desejam loucamente, seja festa de casamento, gravidez, promoção, cruzeiro, free shop ou decoração nova pra sala. E, obviamente, isso não seria diferente se o assunto é arrumar um bofe pra chamar de dela.
Mulheres são virtuosas em afirmar não querer aquilo que mais desejam, da maneira mais convincente possível. Então, homens, (tolinhos!), acreditam mesmo que aquela moça de família fantasiada de pinup só que sexo, só quer diversão, não quer nada sério. Eles acreditam nisso!
Eles vão atrás daquele mar de silicone, se embrenham na chapinha, acreditando que estão no controle da situação.
Enfim, acho mesmo, à revelia de qualquer feminista de plantão, que elas atraem a presa com a promessa de infinitos e fantásticos momentos eróticos enquanto afirmam: "Não quero nada sério".
A sapiência de Freud afirmou que "Entre o sim e o não de uma mulher eu não atreveria a espetar um alfinete". Você arrisca?

Assistam à reprise do programa se discordarem, e pasmem ao ouvir o depoimento de Xico Sá, que desabafou, pois havia "perdido"uma piriguete, e bem... assistam!

segunda-feira, 9 de julho de 2012

um show

Estávamos assistindo um documentário no Globonews sobre Jorge Ben, quando, em um dos shows mostrados (1982), ele chamava Gal ao palco. Ficou claro logo de cara o improviso do momento.
Ela se levanta da platéia e sobe, sorridente. Linda, cabeluda, com uma roupa simplérrima, e deslumbrantemente sensual.
É, tinha algo mesmo que irradiava sensualidade nela, nos trejeitos, na fala, no canto absolutamente improvisado. A autoconfiança, a alegria, a espontaneidade.
E não tinha mesmo como não se maravilhar com a cena. Era uma coisa naturalmente magnética. 
Era isso, pensei.
Rodrigo brincou, dizendo:
"Naquela época tudo era muito doido". 
Sim, devia ter mesmo uma liberdade meio maluca no ar, mas talvez não fosse só isso...
Acho mesmo que tudo, incluindo - paradoxalmente - os espetáculos, tinham muito de simplicidade. E isso me deixa maravilhada, mesmo.
Eram poucos os equipamentos, as maquiagens, e quase desconhecidos os truques de imagem e som que hoje banham nossos sentidos, ao ponto do entorpecimento enjoativo. Mas eram shows de talentos de verdade. Esse era o propósito do show. Óbvio, mas esquecido, não?
Nossos olhos andam muito acostumados ao HD e afins, mas tanto, que cenas assim nos despertam de alguma forma.
Parece que chegamos àquele ponto grotesco das ficções científicas em que os personagens do futuro não reconhecem o que não for artificial, da comida à comunicação, se é que me entendem...
Tente imaginar uma mulher linda: sem silicone, sem lipo, sem "aplicações", sem toneladas de rímel, sem "definitiva", sem luzes, sem grifes pra estampar. Ela não é produto de indústria nenhuma, não é garota propaganda de nada. Ela existe sim, mas em poucos recantos.
Agora reflita: Quem é ela? Está na capa de alguma revista? 

Então. Somos capazes ainda de reconhecer a beleza? Será?

segunda-feira, 4 de junho de 2012

pra você

O que dizer em tão poucos minutos?
Não que me falte assunto, desabafo ou qualquer testemunho.
Queria reclamar do trânsito, da poluição, da internet, da política, da ansiedade, da espera, das incertezas...
Queria poder destilar tanta coisa que passa nas minhas ideias.
Mas não dá tempo, infelizmente.

Então resolvi te dar umas palavrinhas de presente.
Você, ao lado de quem acordei hoje.
Como eu te amo!
Nada tem mais valor pra mim do que seu carinho, sua presença, seu companheirismo.
Te amo muito, um tantão. E pra sempre.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

sobre saltos e o saltar

A vida não nos traz certezas. Chamamos de certeza o que nos traz segurança. Mas não há certezas.
Outro dia assisti um pedacinho de um espetáculo do Cirque du Soleil em que o rapaz, apoiado na corda bamba, dava piruetas no ar e caía lindamente de pé sobre a corda bamba. Eu, que morro de medo de altura, sentia arrepios pela possível queda, pelo desequilíbrio, pela vertigem.
E pensei comigo que antes de executar aquele movimento mágico, com certeza ele caiu centenas de vezes. E que com o tempo passou a cair menos, até chegar a cair muito pouco, ou cair apenas em dias ruins de ensaio. Mas imagino que a cada salto desde o início ele esteve cara a cara com o medo de cair e suas consequências: machucar-se, sentir vergonha, questionar suas habilidades e a escolha de seguir aquela carreira, de não ter ouvido conselhos sobre ser funcionário público (ou qualquer outra coisa) ao invés daquilo e por aí vai...
Mas é muito certo, muito mesmo, que por mais habilidoso que fosse, ele caiu e sentiu medo muitas vezes. E ouviu de tudo nesse meio tempo, vindo dos mais distantes até das pessoas que ele mais ama.
Mas ele seguiu com perseverança, até que ali estava ele, em pleno espetáculo, dono de seus pés, de seus movimentos, dono de si...
Porque comecei a perceber que quem não é dono de si é dono de muitas outras coisas... do medo, da preguiça, do comodismo, da baixa auto-estima, da descrença, mas principalmente de um futuro menos... sei lá... menos.
Assim, passei a crer que ter menos da vida é um desperdício, um absurdo, uma tristeza só. E que mesmo estando ainda na insistência de pelejar até não mais cair um dia, até mirar a corda com os pés certeiros e acertar o salto, já ganhei muito da vida. Muito mais do que se tivesse me enfiado nas pequenas certezas que me protegiam dos desafios e do medo de saltar.
O filme Invencible recentemente me encantou pelo significado: é a história real de um rapaz de 30 anos, habilidoso no futebol americano, mas que sequer tinha praticado este esporte na universidade, e se graduou como professor de literatura. Entre muitos apertos financeiros, surge a oportunidade de ingressar num time através de exaustivas provas físicas. Para frisar: atletas não costumam iniciar numa modalidade aos 30 anos, muito menos se não tiverem integrado os competitivos times universitários americanos. Ele se deparava a todo momento com o fato de ser "fora de hora", mas também com o vislumbre de seu sonho e com a aterradora realidade que o engolia. E um dia, se preparando para a seleção, volta pra casa exausto após horas de corrida. Ao entrar ofegante e desesperançoso pela sala de seu apartamento no subúrbio, ele se depara com as paredes descascando,  com a falta de móveis e com a aura triste daquele lugar. Ainda ofegante, ele faz meia-volta, bate a porta e retoma a corrida. 
O fim do filme não vou contar, mas é fantástico (http://www.imdb.com/title/tt0445990/)
Fiquei refletindo maravilhada, enfim: o que é realmente difícil? Onde ele iria chegar sentindo pena de si mesmo por seu cansaço e pela dificuldade de sua situação?

No início chorei quando caí, chorei muito porque era difícil tentar, penoso perceber a descrença de alguns e às vezes vinda de mim mesma. 

A primeira chamada veio agora, sem meu nome. Mas na verdade a coisa não acabou, está começando. Estou aguardando as próximas chamadas. É possível que meu nome esteja em uma delas.

Se eu tenho medo? Sim. Mas tenho muito mais em minha vida além do medo.
"Não há vencedor que não tenha sofrido", um professor disse no final exaustivo do ano passado. 
E isso é uma verdade.

sábado, 7 de janeiro de 2012

anedotas pela estrada afora

Ontem almoçamos num restaurante na beira da estrada.
Passaram em fila indiana carros com o ministro, jornalistas e afins.
Imaginávamos que eram os dois ministros, mas lemos no jornal que era um só, o dos transportes.
E diante tantos trancos e barrancos rolando morro abaixo, refleti que a Dilma deveria nomear aquele pernambucano, que não visitou nossas estradas, Ministro de Pernambuco. Ou na impossibilidade de estabelecer um ministro por estado, deveria mandá-lo de volta ao Pernambuco que o pariu.

Hoje, viajando de carro, passamos por um paredão que tinha um pedrão imenso rachado, descolando do paredão, quase caindo na estrada.
- Ó, a pedra rachou, nunca vi isso.
- É, nem eu, mas acho que a coisa é assim. Água mole em pedra dura tanto bate até que a estrada cai.
Sim, e ministro mole em presidente dura tanto bate até que começa o ano tomando pedala robinho.

Enfim, se ela precisar de uma vala, um barranco, uma lama pra despachar os sinistros ministros, podemos ajudar. Minas ia adorar ver rolar morro abaixo uns sujeitinhos lá de Brasília.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Mamãe eu quero ser preso político

Mamãe, eu ando tentando
Me vê aí uma ideologia, que essa aqui tá vazia e não cola
Sabe aquele pessoal de 68? Então...
Polícia para quem precisa, mas pra mim não
Porque sou aquela burguesia (que fede)
Que se acha dona do pedaço, dos pedaços
Aprendi cedo que o cliente tem sempre razão
E, sim, mamãe, você me criou como cliente
Que esperneia sempre que é contrariado
Eu acho bonito sair nos jornais algemado
Parece até aquele pessoal de 68
Mas minhas idéias não correspondem aos fatos
Até visto umas camisetas do che
Mas da história de Cuba, só sei o clichê
Armei aquele levante, gritei, pichei, vibrei quando tiraram minhas fotos
Tirei centenas com o meu iPod
Vou colocar no meu face
O meu brinquedo de star
Mas você veio pagar a fiança!
Ah, não, mãe!


quarta-feira, 19 de outubro de 2011

como eu me sinto?


Acho que me resta confiar no pára-quedas.
:)

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Facebook

Minha saída acontecerá em breve.
Abri aquele Facebook agora pela manhã.
E nada de novo havia, como sempre.
Na escala decrescente da qualidade do que se lê e vê naquela página de atualizações: correntes estúpidas, afirmações idiotas, auto-ajuda cibernética, comentários absolutamente desnecessários (o que fiz, comi, vi, o que me impressionou, o que me emputeceu...). E por fim, fotos que se exibem sem pedir licença. Conteúdo que eu não gostaria de ter visto, jamais. Coisas inúteis que se amontoam na minha tela, que nada acrescentam de bom.

E depois se reclama de falta de tempo para o que é importante...

Além do mais, ninguém quer "compartilhar" nada. Só o que querem é um exercício narcisístico de afirmarem o que têm feito, passado, lido, sentido. Só o que esperam é ter seu comentário comentado por alguém. O ápice da solidão e da carência modernas.
Me mantive nessa rede com o propósito de manter contato, principalmente, com quem está longe.
Mas o email ainda existe e persiste, firme e absoluto. Aquele com "De" e "Para", bem definidos, pessoais e intransferíveis.
Essa mecânica atual de "relacionamentos", essa rede "social" não me serve.
E assim será pra mim.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Bill, Sue e as malas

Bill e Sue vieram passar 4 dias conosco. Ficariam aqui em Ouro Preto, depois seguiriam para o congresso em Búzios e depois para Galápagos.
Bill é o ex-chefe do Rodrigo, da Austrália. Sue, a esposa dele.
São um "lovely" casal, como diriam por lá. Estão na faixa dos 60 anos; são muito cultos, inteligentes, viajados, pessoas interessantísssimas.
Chegaram no Rio no dia anterior à vinda para cá. Ligaram pra gente do aeroporto, contando que suas malas não tinham vindo. A cia aérea, lá em Sydney, não embarcou as bagagens deles. Colocaram o Rodrigo em contato com a TAM para combinarem de entrega-las em Ouro Preto dali a dois dias. Disseram que tinham algumas coisas nas malinhas de mão.
Menos mau, né? Pelo menos a escova de dentes...
Só conseguia pensar: Que chato isso, viajar por tantas horas e não ter uma roupa pra trocar, não ter suas coisas. Sempre me senti assim em relação ao que carrego comigo em viagens. Ao chegar num lugar estranho, aquilo ali vai te dar um conforto. Ter suas roupas limpas, sua toalha, seus cheiros, seu pijama. A sensação de que está tudo em ordem, enfim.

Organizamos a casa na véspera. Compramos goiabada cascão, doce de leite, castanhas-do-Pará, chás no Mercado Central, queijo minas frescal e outro meia-cura, dois tipos de manga, mamão, abacaxi; e , claro, nos certificamos de que havia pão-de-queijo suficiente (caseiro,tá? Peloamordedeus).

A visita foi maravilhosa. Há dois anos não os via. Que maravilha ter a oportunidade de conversar com eles novamente! Como são cultos; como conhecem o mundo, as coisas, os livros, as plantas (inclusive as do meu quintal!), como se interessam por tudo, querem experimentar tudo, ouvir, ver, conhecer (tinham lido, antes da viagem, a história da vinda de D João com a corte e também sobre Tiradentes).
Não fazem pré-julgamento de nada, como olham as coisas com a mente aberta, como ficam maravilhados com tudo. O mamão era "lovely!", a goiabada "wonderful!", as mangas e seus sabores distintos, "surprising!".
E sempre, sempre, têm uma história interessante pra contar.

Mas as malas não chegaram conforme prometido. A TAM se comprometeu a entregá-las em Búzios.
Mais alguns dias com as mesmas roupas, pensei, que transtorno.
Mas aí eu olhava o Bill, com sua calça cáqui, e sua camisa social com um furo debaixo do braço, descalço; sentado na nossa varanda, observando o quintal e achando lindo poder ver montanhas em volta e ouvir pássaros diferentes. Perguntava sobre a pedra São Tomé que reveste o chão, sobre a construção do vizinho, sobre os portugueses. Eram ele puritanos como os ingleses, no relacionamento com os colonos e escravos?
Comecei a perceber que estava mais preocupada do que eles a respeito das malas.
Enquanto a Sue descansava tranquila no sofá, comentei que se estivesse em seu lugar, estaria realmente chateada por não ter minhas coisas. A resposta foi... "surprising":
"Na verdade... não tinha nada muito importante na mala. Só iria me fazer falta a minha roupa de mergulho. Não queria chegar em Galápagos sem ela, pois a água é muito fria e eu não poderia mergulhar."

Acho que estou refletindo até hoje sobre isso.
O que há de mais importante na mala que a gente carrega? 
Pra que serve a tola sensação de preciosismo, o receio de usar o mesmo par de meias por vários dias?
O que é de fato importante na viagem? O que te veste ou aquilo do que você se despe?



terça-feira, 20 de setembro de 2011

o sistema devia cair

Tudo começou com o ferro de passar e sua garantia extendida.
Logo após me revoltar com a duração curtíssima dos eletrodomésticos, vi-brei quando descobri que ainda estava na garantia.
Levei o ferro na loja.
Não, não é assim. Liga no "Atendimento" (essa palavra me causa petéquias), explica o sisnistro, pega uma senha e volta aqui pra fazermos a troca.
Ferro na mochila, volto com ele pra casa.
30 minutos, três atendentes, cinco repetições do CPF, endereço, estado civil (relevante???) ... e  então consigo uma senha cabalística de 21 DÍGITOS e uma outra de 6.
Pronto, é só ir à loja com esses números e trocar por um ferro novo.
Assim sendo...
Vendedor1: É troca? Fala ali com o gerente.
Gerente: O quê, é so troca? Qualquer vendedor lá embaixo pode fazer isso pra você.
Vendedor2: Num sei fazer isso nesse sistema novo não.
Gerente: Fala ali com a fulana que ela te ajuda.
Fulana solícita, graças aos céus...
Mas o sistema era novo, ninguém sabia direito as telas, onde colocar os números, que números eram aqueles... 
Me distraí com uma das tvs gigantes na parede, que mostrava uma imagem irritantemente nítida de um grupo de garças à beira de um rio no Pantanal. Que inveja das garças. Sem números, protocolos nem ferros de passar.
Vendedor2: vou na outra loja e chamar a Fulaninha pra me ajudar, ela sabe melhor desse sistema.
Li a tela onde elas pelejavam. Só pensava em pegar o ferro do mostruário e falar pra eles se virarem com o resto da burocracia.
Chega a fulaninha, que não acrescenta muito, além da boa vontade em conferir os números e digitá-los novamente.
Vamos ligar no "Atendimento" pra conferir.
Petéquias afloraram vermelhinhas.
Meus dados pessoais e o engodo dos números malditos viajaram kilômetros na fibra ótica e nos cubículos de ao menos meia dúzia de atendentes; além de ocupar consideráveis minutos do dia de vários trabalhadores da loja, que deixavam seus clientes pra desatar aquele nó.
Todos culpavam o sistema novo. Não tiveram treinamento suficiente, estão tendo que aprender na marra, etc.
Pausa.
Já trabalhei com treinamento e suporte de software. Essa conversa é fiadíssima. Fato é que ninguém quer que o sistema mude. Ninguém gosta de ter sua ferramenta de trabalho alterada. E pra fazer pirraça, não prestam atenção ao treinamento, acham que na hora conseguem se virar. Mas na hora h, a culpa é do sistema, do treinamento, da rede... E claro, o anterior, ainda que fosse um lixo, sempre será melhor que o novo. Parecia que eu tava revendo um trailer de um filme antigo.
Voltando
Vem o gerente e faz política: Olha, me desculpe, mas essa é a primeira troca que estamos fazendo com o sistema novo, viu ?!
E nem pra vocês me darem um prêmio por ser a cobaia, pensei comigo...
Vem outro vendedor que desiste e depois outro.
Até que eu ouvi que não ia ter jeito, que o sistema não registrou, que a senha que me deram era inválida e que eu receberia um reembolso da empresa da garantia.
Não não. Não quero reembolso. Tenho o direito de levar um ferro novo.
Tensão...
A fulana respira fundo. Vamos tentar mais uma vez.
Tá, mas deixe eu falar com a atendente. Peguei o fone.
Quero a senha, está faltando uma senha aqui. A que me deram mais cedo tava errada.
Ah, senha? Sim, anote aí.
Não, eu não havia trocado 3 por 6. Era um número completamente diferente.
A fulana comemora radiante: Ah! Deu certo! Era a senha! ...
E me dá um abraço!
Ah, Natália, que bom! Coitada de você, esperando por tanto tempo!
Meu sorriso de consumidora surpresa e aliviada...
Mais uma peleja de 15 minutos pra registrar que fiz a troca. E mais um vendedor pra ajudar com as medonhas telas azuis. Sim, pois o que atrapalhava agora, descobrimos (comigo ajudando), era que o nome da rua é Ipê e não Ype. Aí travava tudo.
Devia ter explicado que era nome de árvore e não de detergente?

Olha, podemos repensar esses sistemas e voltar a anotar no papel de pão?
É tão frustrante toda a complicação que as facilidades modernas trouxeram às nossas vidas...

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

se existe um fim

Olhei pela janela do quarto andar ontem e me senti mal.
O céu, famoso por abrigar tantas coisas, de deuses a satélites, mostrava algo medonho.
Aconteceu.
Não era a cauda flamejante de um meteoro, nem luzes de discos voadores, nem anjos com suas trombetas e bundas de fora, nem aviões, nem o exército, nem o salvador, nem o ditador.
Se há um fim, me certifico de que será a simples impossibilidade biológica de existir.
O azul tinha virado cinza.
Meu deus, aconteceu.
O ar virou veneno.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

eu curti

A gente não se contenta mais só em observar.
Se não tiver foto, é como se não tivesse acontecido, ou passado diante dos nossos olhos. Contar a história pra alguém não tem mais o mesmo gosto se não sacarmos o aparelhinho e mostrarmos orgulhosos a foto, ou as milhares de fotos.
A falta da imagem desvalida a experiência. Se não tiver o espetáculo da imagem, a linguagem sagaz dos megapixels sempre à mão, é o mesmo de descreditar ao contador a veracidade do impacto da história..
Ontem, não me contive. Após observar maravilhada um ipê amarelo tinindo ao sol, contrastando com o céu azul-anil, e as linhas ondulantes do Edifício Niemeyer, capturei a imagem com meu celular. O mesmo era feito por todos os passantes que se atentaram para a cena.
Era tão lindo que eu queria levar pra casa.
Peguei uma das flores, recém-caida na calçada da praça e a coloquei dentro do meu livro.
Era tão lindo que eu queria levar pra casa.
À noite me lembrei da foto e, ao revê-la, vi que era apenas mais uma foto, nada de mais. Não ganharia um prêmio por ela. A árvore não me pertencia, nem as flores, nem o tempo, nem o azul do céu, nem o momento.
Guardar a imagem nos MB dos aparelhindos parece dar a muita gente a sensação infantil de que se apossaram daquilo, a petulância de possuírem. Porque parece mesmo que só isso importa nesses dias.

Mas fato é que eu nem precisava dela pra direcionar minha memória ao instante em que fiquei maravilhada com o amarelo vivo e ofuscante dos tufos floridos ao sol, no fundo azul limpinho do céu de agosto, enquanto as flores caíam devagar na grama quando os galhos balançavam na brisa, formando um lindo tapete verde-e-amarelo.

Aquela coisa que o coração captura, mas a antena não.